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Quem consegue dormir no hospital? Apesar da rotina hospitalar exigir controles, medicação e cuidados na madrugada, especialistas acreditam ser possível melhorar alguns procedimentos para garantir a qualidade do sono dos pacientes

Não dormia na UTI, era impossível. Quando finalmente conseguia dormir, vinha a enfermeira tirar sangue, colocar medicação ou trocar o soro. A porta era de vidro transparente e tinha claridade. Eu escutava os aparelhos, as conversas e os outros pacientes que passavam mal. Foi muito estressante”, conta a professora aposentada Maria Fernanda Branco, 69 anos, que fez uma cirurgia para retirada da vesícula, em 2016. 

Devido a complicações, ela ficou duas noites na UTI e cinco dias no quarto até receber alta. “No quarto conseguia dormir melhor, apesar das dores que sentia, mas tinha o entra e sai das enfermeiras que mantinham a luz ligada. Eu ouvia o barulho dos carrinhos no corredor”, detalha Maria Fernanda. 

Já o geólogo Maurício Melo, 42 anos, passou quatro noites em um hospital de Buenos Aires, acompanhando a esposa que fez uma cirurgia cesariana, em outubro de 2019. O bebê nasceu prematuro e o pós-parto foi demorado, pois ela precisou receber transfusões de sangue.Melo conta que teve dificuldade para dormir no hospital. “Meu maior desconforto foi quando fizeram uma ecografia de madrugada na minha esposa. Entraram no quarto, sem bater na porta, acendendo as luzes, quando despertei no susto”, relata. A falta de sono influenciou no cansaço e na maior irritabilidade que sentiu nos dias de hospital. “Além do estresse, gerou um aumento do mau humor”, diz Melo. 

Sono x rotina hospitalar 

Assim como Maria Fernanda e Maurício, todos os dias, milhares de pacientes e acompanhantes vivem a rotina hospitalar, passando por noites de fragmentação e consequente restrição do sono. Segundo a Dra. Sonia Togeiro, pneumologista e especialista em Medicina do Sono, quando a pessoa dorme pouco, há a estimulação de regiões do cérebro, como o hipotálamo que estimula a glândula hipófise que, por sua vez, estimula as glândulas suprarrenais. “Assim, esta condição de restrição ou diminuição do sono é considerada um estresse para o organismo e, como tal, determina a ativação de todo esse eixo, culminando com a liberação de catecolaminas e cortisol. Dependendo da intensidade deste fenômeno, pode levar o indivíduo a ficar hipertenso, predispor alterações metabólicas, como pré-diabetes e diabetes, além de ficar mais alerta”, explica. 

Ainda faltam evidências na literatura científica sobre o impacto da fragmentação do sono em pacientes hospitalizados, mas é plausível que se sintam mais cansados, sonolentos e com maior fadiga. 

Outro ponto é que a privação de sono pode reduzir o limiar de dor, tanto que uma das abordagens atuais, quando se trata de dor crônica, é melhorar o sono para melhorar a dor. “A dor piora o sono e o sono ruim agrava a percepção da dor. Agir nesses pontos pode ser uma alternativa, pois a falta de sono poderia atrapalhar a analgesia do paciente internado que fez, por exemplo, uma cirurgia ou sofre de algum tipo de dor”, explica a especialista. 

Um estudo1, publicado no jornal de neurociência JNeurosci, demonstrou que a falta de sono pode piorar a percepção da dor. Realizado em duas fases, o trabalho analisou o limiar de dor de 25 adultos, em laboratório, e 236 participantes online, considerando a variabilidade natural de noite para noite da qualidade, eficiência e duração do sono. Entre os achados, o estudo demonstrou um impacto significativo da privação do sono no processamento da dor. 

Já outro artigo2, publicado na Annals of Gastroenterology, mostrou que a falta de sono afeta a cicatrização de feridas em pacientes com doenças inflamatórias intestinais. O estudo utilizou o Pittsburgh Sleep Quality Index para analisar 90 pacientes com colite ulcerativa ou doença de Crohn, doenças caracterizadas pela inflamação na mucosa intestinal. 

Esta inflamação levou mais tempo para cicatrizar entre os pacientes que tiveram escores mais baixos de sono. Dos 90 pacientes analisados, 45% não dormiam bem e a ausência de cicatrização, observada nos exames, estava associada à pior qualidade de sono. “Esses pacientes estavam em remissão da doença. Mas podemos extrapolar esses achados para os pacientes internados, por exemplo, em condições cirúrgicas”, avalia Dra Sonia.

Fonte: Sharon McCutcheon | unsplash

Um novo olhar 

Para a Dra. Sonia Togeiro é possível amenizar o impacto no sono provocado pela rotina hospitalar que envolve manipulação do paciente, exames, medicações e controles. Para isso, é necessário o treinamento das equipes de enfermagem e pessoal que trabalham nos hospitais sobre a importância do sono dos pacientes, levando-se em conta que nas suas rotinas atuem de forma silenciosa e racional. 

Outra sugestão é dar mais atenção ao ciclo claro-escuro, visando sincronizar o ritmo sonovigília. “A exposição à luz é fundamental e, às vezes, o paciente internado com a janela fechada não sabe o que é noite e o que é dia. É um aspecto importante que pode alterar o ritmo circadiano”, comenta Dra. Sonia. Para ela, se a condição do paciente permitir e não houver contraindicações poderia fazer parte da rotina hospitalar um passeio em jardim ou espaço aberto. 

Quando os pacientes conseguem ter uma noite de sono melhor, sentem-se mais dispostos, menos sonolentos e com menos fadiga, respondendo melhor aos estímulos. “Caso contrário, ao examinar o paciente, não sabemos se está sonolento porque não dormiu adequadamente ou se é consequência de algum medicamento ou da própria doença. Então, a falta de sono pode interferir na avaliação do estado de saúde destes pacientes”, diz a Dra. Sonia.

Turnos impactam nas medicações

Não é apenas no sono dos pacientes que a rotina hospitalar tem impacto. Um estudo3 publicado na PNAS, avaliou a influência das mudanças de turnos das equipes na administração dos medicamentos. Durante sete anos, foram analisadas a distribuição diária de mais de 500 mil doses de 12 medicamentos para 1.546 pacientes internados em um hospital infantil. 

O trabalho mostrou que o corpo médico tem horários em que costuma ver os pacientes internados e isso impacta na prescrição dos medicamentos. “Se o médico passa de manhã, a primeira dose do medicamento será administrada após essa visita e, talvez, não ocorra no horário mais adequado para otimizar o efeito do medicamento. A administração é feita pelo corpo de enfermagem que também é influenciada por seus horários de trabalho”, explica a Dra. Claudia Moreno, bióloga, vice-presidente da ABS. 

O estudo revelou que 1/3 das prescrições ocorrem pela manhã, quando o médico visita o paciente e as primeiras administrações de medicamentos cerca de duas horas após a visita. A resposta ao anti-hipertensivo hidralazina variou de 3% a 4% ao longo de 24 horas, mas os pacientes foram mais responsivos à terapia durante à noite, período em houve poucas prescrições. “Isso significa que o efeito da hora do dia dos medicamentos deveria ser levado em consideração para que se tornem mais efetivos”, explica Dra. Claudia. Dessa forma, o estudo alerta para o quanto a organização do trabalho de um hospital pode otimizar a efetividade de um medicamento e promover a saúde dos pacientes

Fazendo diferente

No Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, desde 2010, existem iniciativas para educar a equipe multiprofissional sobre a importância do sono na recuperação dos pacientes e na prevenção de transtornos do sono após a alta hospitalar. “Inicialmente, as ações estavam relacionadas a fóruns do programa de neurologia e, desde 2014, um grupo médico assistencial do sono trabalha na criação de normas e protocolos institucionais voltados à Medicina do Sono”, conta Dr. Leonardo Goulart, médico neurologista, neurofisiologista clínico, especialista em doença do sono e coordenador do grupo médico assistencial (GMA) do Hospital Israelita Albert Einstein. 

O neurologista explica que os protocolos envolvem o diagnóstico e o tratamento intrahospitalar de transtornos respiratórios do sono, em caso de doenças cardio e cerebrovascular agudas; a otimização das rotinas de coleta, exames e administração de tratamento durante o sono; o aumento da luminosidade durante o dia, se não houver contraindicações; o uso racional de sedativos e indutores do sono; entre outras medidas. “O Hospital Israelita Albert Einstein foi um dos primeiros na implantação de polissonografia tipo 2 no leito, tanto na enfermaria quanto na unidade semi-intensiva e UTI. Esse serviço já está bem estruturado na rotina do hospital desde 2012”, diz. 

Ele lembra que existem estudos que mostram que o padrão de sono dos pacientes durante a internação e, muitas vezes, após a alta hospitalar, piora muito se comparado ao padrão que o paciente tinha antes da internação. Além disso, existem grupos de pacientes e patologias específicas que estão sob risco maior para a piora da qualidade de sono no período de internação, como os pacientes com dor e/ou restrição do movimento. “No que diz respeito à quantidade, parece que o tempo total de sono nas 24 horas não se altera muito, mas o que ocorre é uma fragmentação maior e horários irregulares”, explica. 

O primeiro passo para minimizar o impacto da rotina hospitalar no sono é a conscientização da equipe envolvida nos cuidados com o paciente. “A partir de então é possível organizar uma rotina de administração de medicamentos e coleta de exames que interfira o mínimo possível na rotina de sono”, comenta. Dr. Leonardo Goulart. Ele explica que até o momento não há dados objetivos dos resultados das intervenções, pois foram implementadas, à princípio, com cunho assistencial e não científico.

Fonte: Por Fabiana Fontainha, Revista Sono – Ed. 20 (Outubro, Novembro e Dezembro 2020)  – Uma publicação da Associação Brasileira do Sono.

Foto: Freepik

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