fbpx
ADS

Novos artigos reforçam o impacto do trabalho noturno ou em turnos na saúde

O trabalho noturno ou em turnos é essencial para garantir a produção e as atividades da sociedade moderna, 24 horas por dia, sendo comum nos setores de saúde, manufatura, transporte, varejo e serviços. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1 em cada 5 trabalhadores, em todo o mundo, está envolvido em trabalhos noturnos. 

As repercussões negativas dessa condição de trabalho no sono e na saúde das pessoas já são conhecidas, pois a ruptura do ritmo circadiano é o efeito mais pronunciado do trabalho noturno, provocando a desregulação dos estados de sono e vigília, temperatura corporal, metabolismo, estado de alerta, entre outros fatores essenciais para o funcionamento do ciclo biológico. Agora, novos estudos reforçam o impacto do trabalho noturno ou em turnos para a saúde, associando-o ao câncer. 

Nova classificação 

O artigo Carcinogenicity of Night Shif Work, publicado na The Lancet Oncology, em julho de 2019, classificou o trabalho noturno como provavelmente carcinogênico. O artigo sumariza uma monografia recente da Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer, da Organização Mundial da Saúde (IARCWHO), a qual será publicada no início de 2020. Para chegar a essa conclusão, um Grupo de Trabalho com 27 cientistas, de 16 países, se reuniu na IARC, em Lyon (França), com o objetivo de finalizar uma ampla avaliação sobre a carcinogenicidade do trabalho noturno.

Segundo a Dra. Claudia Moreno, vice-presidente da ABS e uma das cientistas participantes do Grupo, os pesquisadores analisaram centenas de estudos com abordagem sobre ritmo circadiano e profissões noturnas. “O trabalho começou meses antes do encontro realizado em Lyon, quando todo o levantamento já havia sido realizado. Todos os estudos sobre o tema já publicados foram avaliados”, comenta Dra. Claudia, que é bióloga e especialista em Cronobiologia. 

A pesquisadora explica que a monografia da IARC mostrou que existem evidências robustas, em ambos humanos e animais experimentais, de que a alteração do claro-escuro resulta em alterações da melatonina e na expressão de genes circadianos centrais. Em relação às características dos carcinógenos, descobriu-se que existem fortes evidências dos mecanismos envolvidos nesse processo, em sistemas experimentais, com base em efeitos consistentes de imunossupressão, inflamação crônica e proliferação celular. 

“A equipe decidiu que o trabalho noturno deveria ser classificado no Grupo 2A, ‘provavelmente carcinogênico para humanos’, com base em evidências limitadas de câncer em humanos, aspecto suficiente de câncer em animais experimentais e forte evidência dos mecanismos observada em estudos com modelos animais”, explica Dra. Claudia. 

Os especialistas observaram uma associação positiva entre trabalho noturno e câncer de mama, de próstata e colorretal, principalmente entre operários, enfermeiras, comissários de voo e pilotos de avião. “Ainda não se sabe a razão de alguns tipos de câncer estarem associados ao trabalho noturno e outros não”, diz a bióloga. 

A cientista explica que ainda são necessários mais estudos com outros tipos de câncer e, principalmente, com a mensuração mais precisa do número de noites trabalhadas para que se possa estimar o risco do desenvolvimento de câncer. “Os efeitos da ruptura circadiana devem receber maior atenção e seus riscos avaliados em diversas situações, como a de aeronautas, por exemplo”, comenta Dra. Claudia.

Impacto nas gerações futuras

Já outro estudo, intitulado Reduced melatonin synthesis in pregnant night workers: Metabolic implications for offspring*, publicado na revista Medical Hypotheses, em agosto de 2019, traz um artigo de revisão narrativa sobre as implicações metabólicas da redução da síntese de melatonina em gestantes trabalhadoras noturnas. O artigo sugere que a supressão da produção de melatonina pela exposição à luz durante o trabalho noturno, em gestantes, poderia afetar a programação metabólica intrauterina, levando potencialmente a distúrbios metabólicos nos seus filhos. 

Segundo o Dr. José Cipolla-Neto, um dos autores do artigo e Professor de Fisiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), o estudo levantou hipóteses a partir de elementos obtidos experimentalmente pelo seu grupo de trabalho. “São dados experimentais. Nosso trabalho demonstrou que filhotes de mães pinealectomizadas (com excisão da glândula pineal e, consequentemente, sem melatonina circulante), quando adultos, apresentam um quadro metabólico de intolerância à glicose e resistência à insulina”, explica.

 Ele relata que, em outros trabalhos, um grupo chileno liderado pela Dra Claudia Torres- Farfan, demonstrou que filhotes de mães fotoiluminadas durante a gravidez, apresentam, quando adultos, quadro metabólico semelhante. “Nestes dois trabalhos, a reposição de melatonina na mãe durante a gravidez foi capaz de prevenir o aparecimento do quadro diabetogênico nos filhotes. 

Dessa maneira, os trabalhos experimentais, conclusivamente, apontam que a iluminação noturna, com a consequente queda na produção de melatonina, associada a uma possível alteração da circadiana, tem consequências sérias para a saúde”, explica o pesquisador. Dessa forma, o impacto no desenvolvimento e programação fetal está diretamente ligado à ausência ou redução da melatonina materna. “Esse estudo acrescenta o fato de que a preocupação não deve ser somente com os trabalhadores noturnos, mas que essas condições de saúde podem ser transmitidas para a geração seguinte, agravando, socialmente, o quadro de saúde da população trabalhadora noturna”, destaca Cipolla-Neto.

Ritmo Circadiano em evidência

O ritmo circadiano será destaque no Congresso Brasileiro do Sono 2019, entre 4 e 7 de dezembro, em Foz do Iguaçu (PR). O tema foi, inclusive, escolhido para a Palestra de Abertura do evento “Enhancing Circadian Function for Health and Society” com a Dra. Phyllis Zee, Professora e Chefe de Medicina do Sono no Departamento de Neurologia da Universidade de Northwestern (EUA). 

“Na conferência sobre sono e envelhecimento, a Profa. Phyllis Zee abordará as diferenças entre as mudanças que ocorrem naturalmente ao longo do envelhecimento e os distúrbios do sono e do ritmo circadiano”, conta Dra. Claudia Moreno. 

Outras sessões do Congresso abordarão o ritmo circadiano, como a discussão sobre a “Organização temporal da sociedade contemporânea e a influência no sono e na alimentação”, temática que tem sido destaque em congressos internacionais. “O assunto evidencia a necessidade de se respeitar o caráter individual do ritmo circadiano em uma sociedade que é organizada para um coletivo. Em outras palavras, como respeitar a necessidade individual de dormir quando nossas atividades dependem de horários que não são organizados somente para nós?”, lembra a bióloga. 

Já a sessão “Uso e abuso da melatonina” irá trazer uma avaliação do uso do hormônio que vem sendo utilizado para induzir o sono, mas altera a ritmicidade endógena do organismo. Serão apresentados exemplos sobre casos em que o uso da melatonina pode ser inadequado. 

O jetlag social também será abordado no Congresso, enfatizando as diferenças de sono entre os dias de trabalho e o fim de semana, assim como as consequências para a saúde devido à restrição de sono durante a semana.

Fonte: Revista Sono – Ed. 19 (Julho, Agosto e Setembro 19)  – Uma publicação da Associação Brasileira do Sono.

Foto: Freepik

ADS

Enviar meu comentário